O Paradoxo da Aceitação
1 de Abril de 2019 · 4 min de leitura

Carl Rogers, o Pai da Psicologia Humanista dizia: “Curioso paradoxo, quando me aceito como sou, posso então mudar”.
De facto é paradoxal e até contraintuitiva esta abordagem. Somos educados a lutar contra o que não queremos, resistir ao que não aceitamos e isso é visto como sinal de força, de personalidade e até de carácter.
Conheço o caso de alguém que nunca aceitou o seu divórcio e passados 30 anos ainda sofre com a mágoa do sucedido. Será força de carácter não aceitar aquilo que a realidade concretizou e lamentar no decurso de décadas a realidade? Ou a verdadeira força e coragem está em aceitar a realidade que é, experienciar totalmente os sentimentos e prosseguir caminho liberto das mágoas?
Muito do nosso sofrimento psicológico advém do facto de não aceitarmos a realidade tal como ela se apresenta no momento. Não aceitamos os infortúnios, os desaires ou os “divórcios” que por vezes nos batem à porta. Talvez ingenuamente, acreditemos que ao não aceitarmos pode ser que simplesmente as coisas desapareçam, não sejam tão reais… Entramos assim em conflito com a realidade não aceitando que as coisas, neste momento, são como são. E, ao não aceitarmos a vida como ela é, afastamo-nos da vida, “divorciamo-nos” da experiência que a vida oferece neste momento.
As evidências mostram que quanto mais resistimos a alguma coisa, quando não aceitamos, mais isso se mantém em nós e nas nossas vidas. Ao não aceitar algo, ao rejeitar algo, o nosso cérebro tem de manter isso na consciência, para saber o que rejeitar. É como dizermos: “agora, por uns momentos, não pense num elefante cor de rosa!” – Imediatamente o cérebro vai criar a imagem do elefante cor de rosa para saber o que tem de ignorar. Ao não aceitar algo, temos de o manter em mente e perpetuamos assim o nosso sofrimento.
A investigação tem demonstrado claramente que quanto mais tentamos suprimir pensamentos e sentimentos, porque não os aceitamos, mais presentes eles se tornam. Para além disso, embora estas tentativas de controlar a nossa experiência interna possam parecer funcionar a curto prazo, em última análise conduzem a uma existência mais limitada.
Evitar pensamentos e sentimentos simplesmente não funciona, as tentativas de supressão do pensamento produzem um efeito paradoxal conduzindo a um aumento da sua frequência. É a luta para nos livrarmos e resistirmos aos pensamentos e sentimentos que mais frequentemente nos conduz ao sofrimento.
Aceitar é receber o que é oferecido e não significa querer ou gostar nem representa desistir ou resignar-se. A aceitação é a disponibilidade para permanecer em contacto com uma experiência interna, ainda que desagradável, significa contactar plenamente com as experiências originadas pela nossa história pessoal, sem tentar fugir, modificar ou controlar esses acontecimentos.
Aceitar não é concordar ou apoiar, aceitar é harmonizar-se com a realidade que já existe.
Há aqui um interessante paradoxo do qual Carl Rogers falava pois só após aceitar que algo existe em nós ou na nossa vida é que podemos mobilizar recursos, internos e externos, para o transformar, até lá nada podemos fazer porque estamos em luta com o que existe, com a realidade. “Para sair há que entrar” ou seja, para ultrapassar uma situação há que aceitar a sua existência.
A aceitação não significa assim que nada se faça para modificar a situação mas só após aceitar é que podemos pensar em possíveis alternativas. Ao invés de fraqueza, a aceitação requer grande coragem pois pressupõe que nos disponibilizamos a sentir emoções difíceis.
A aceitação é um caminho transformador que foi já convertido como Modelo de Intervenção Psicológica designado de Terapia da Aceitação e Compromisso ou ACT e envolve, fundamentalmente, o desenvolvimento da disponibilidade para experienciar ao invés de evitar aceitando a experiência tal como ela é no momento presente.
Este artigo é psicoeducativo — ajuda a pensar, não diagnostica, e não substitui acompanhamento profissional. Se precisa de apoio imediato: SNS 24 — 808 24 24 24 (24h) · Emergências: 112.