O poder da Autocompaixão
1 de Março de 2019 · 4 min de leitura

Quando temos um revés na vida – um desemprego, um conflito, uma dificuldade financeira, um divórcio, ou outro, geralmente reagimos de duas formas: ou tornamo-nos defensivos e culpamos os outros ou culpamo-nos a nós mesmos! No entanto nenhuma das formas trás grande utilidade. Culpabilizar os outros pode aliviar a sensação de fracasso mas não traduz aprendizagem e a auto-culpabilização pode levar a uma avaliação limitada do potencial pessoal que mina o desenvolvimento futuro.
E se, ao invés de nos autoflagelarmos nos tratássemos como trataríamos um amigo querido numa situação semelhante? Provavelmente seríamos compreensivos, empáticos, encorajadores. Direcionar este tipo de resposta a nós mesmos é conhecido atualmente como autocompaixão e tem sido alvo de investigação nos últimos anos.
A Psicologia está a descobrir que a autocompaixão é uma abordagem muito útil que permite melhorar em diversos domínios da saúde mental, nas relações com os outros, na melhoria do desempenho escolar, profissional, desporto e inclusive na área do envelhecimento saudável.
Ainda que a autocompaixão seja atualmente menos conhecida que a autoestima, são coisas diferentes e a autocompaixão surge como um caminho mais equilibrado para ganhar bem-estar consigo mesmo.
A diferença fundamental entre autocompaixão e autoestima é que a autoestima envolve comparação com os outros e a autocompaixão não. Temos uma alta autoestima quando nos salientamos em relação aos demais, somos melhores nalguma coisa! Inerente ao conceito de autoestima está uma mentalidade de ranking social em que o valor pessoal de cada um é resultado do que se tem: quantidade e qualidade de bens materiais, tipo de emprego, habilitações, nº de amigos, notas na escola, etc.
A autocompaixão não depende dos outros, não depende da avaliação ou julgamento de nós próprios em relação aos outros. A autocompaixão cria um sentimento de auto-valor, de merecimento, apenas por que somos humanos e, por vezes, sofremos. A autocompaixão leva as pessoas a tratarem-se genuinamente com carinho, a cuidarem do seu bem-estar e a recuperarem dos reveses da vida.
A autocompaixão tem inerente o desenvolvimento de uma atitude compassiva consigo mesmo (ao invés de julgadora e ajuizadora) em que há um reconhecimento que os erros ou fracassos são parte da aprendizagem e da experiência humana. Na autocompaixão há um equilíbrio e aceitação de emoções negativas - é possível experienciar emoções negativas sem se deixar levar pelas emoções.
Um dos obstáculos que surge no desenvolvimento de autocompaixão é o autocriticismo que é tipicamente ativado quando as pessoas sentem que falham nas tarefas ou se as coisas correm mal.
O autocriticismo representa uma relação interna hostil que ativa o sistema de defesa/ameaça, gera stress e impede que se tenha acesso às áreas de criatividade e pensamento estratégico que o nosso cérebro dispõe. Ao invés de promover o desenvolvimento, o autocriticismo pode boicotar esse desenvolvimento ao impedir o acesso a soluções novas e criativas. O autocriticismo está na base do desenvolvimento de sentimentos de vergonha e culpa que podem levar ao evitamento experiencial, ao isolamento social, e mal-estar psicológico.
Os estudos revelam que as pessoas sentem grande resistência em largar este autocriticismo pois acreditam que sem se autocriticarem tornar-se-iam desmotivadas, permissivas e preguiçosas. Na realidade o autocriticismo mina a motivação, a autoconfiança e gera medo.
A autocompaixão por seu turno leva a um maior nível de compromisso para objetivos a longo prazo, é maior a probabilidade de aprender com os erros, a resiliência aumenta e as pessoas tornam-se mais capazes de lidar e ultrapassar situações traumáticas.
A autocompaixão fornece assim um sentimento de auto-valor mais estável porque está lá quando fracassamos. Mesmo quando a autoestima nos abandona, no fracasso, a autocompaixão entra e dá-nos uma sensação de sermos valiosos não porque atingimos um determinado padrão ou porque nos julgamos positivamente mas porque somos um ser humano, merecedor de amor naquele momento.
Fica a sugestão: perceba como fala consigo quando erra ou fracassa. É crítico? Acusador? Se sim, aos poucos modifique o discurso de modo a ser compreensivo, gentil, encorajador consigo mesmo. De início pode ser difícil mas com a prática verá que transforma a forma como se sente e como se vê a si mesmo!
Este artigo é psicoeducativo — ajuda a pensar, não diagnostica, e não substitui acompanhamento profissional. Se precisa de apoio imediato: SNS 24 — 808 24 24 24 (24h) · Emergências: 112.