O mito “e viveram felizes para sempre” e a realidade das relações
1 de Outubro de 2025 · 4 min de leitura

Crescemos com as histórias de encantar que retratam amores ilusórios de felicidade eterna. Histórias românticas em que depois de alguns entraves iniciais terminavam invariavelmente com a frase: “e viveram felizes para sempre”.
Este imaginário cultural, alicerçado nos contos de fadas, filmes românticos e até por algumas crenças sociais, reforça a ideia de que uma relação amorosa verdadeira deve ser sempre harmoniosa, sem grandes conflitos, como se o amor fosse suficiente para apagar as complexidades da vida real.
Sabemos hoje, através da psicologia e neurociências que a realidade relacional é bem diferente: relações saudáveis não são aquelas sem dificuldades, mas sim as que conseguem crescer através delas. John Gottman, que investiga a psicologia das relações há várias décadas, refere inclusive que 69% dos conflitos conjugais são crónicos (diferenças de personalidade, valores ou estilos de vida). O investigador acrescenta que o que permite uma boa relação não é tanto a resolução destas diferenças (muitas vezes impossível), mas a capacidade de dialogar sobre estas diferenças com humor, empatia e flexibilidade.
Não é difícil de conceber que, frequentemente, se inicia uma relação com uma expectativa irrealista da mesma. O imaginário retrata um cenário de felicidade eterna em que o outro preenche satisfatoriamente todas as nossas necessidades emocionais e a realidade do dia a dia revela algo substancialmente diferente. Somos seres complexos com capacidades e limitações, com histórias de vida únicas, com traumas e uma bagagem emocional por vezes pesada que nos traz vulnerabilidades. Talvez seja esta a premissa inicial a rever se queremos uma relação saudável e duradoura: investir mais na relação real, no ser real que está connosco, do que ficar preso a um sonho lindo de uma relação ideal com um ser perfeito só possível nos filmes.
O amor não é algo estático, mas um processo dinâmico em permanente construção (ou desconstrução…).
Se a paixão inicial é muito cativante e queremos que dure para sempre, a investigação revela que é um estado limitado no tempo. Os neurotransmissores associados à paixão como a dopamina e adrenalina trazem-nos emoções fortes e até viciantes. Fazem-nos perder o sono, pensar quase obcessivamente no outro, por vezes até o apetite perdemos. Pode ser uma fase importante ao facultar a energia e o entusiasmo para acomodar o outro na nossa vida, mas aos poucos os níveis de dopamina e adrenalina baixam e o “fogo de artificio” apaga-se. Em vez de lamentar o seu fim podemos apreciar o surgimento de algo mais profundo: uma intimidade mais estável baseada agora na oxitocina, o neurotransmissor associado ao vínculo duradouro.
É importante compreender que a intimidade verdadeira nasce da vulnerabilidade partilhada. Pesquisas de Brené Brown destacam como a coragem de sermos autênticos e imperfeitos diante do outro fortalece os laços. No entanto, abrir-se dessa forma exige segurança relacional — um espaço em que ambas as pessoas se sintam vistas e respeitadas. Isso não acontece automaticamente, mas é construído no dia a dia, através de pequenas ações: ouvir sem interromper, comunicação clara, respeito e confiança, validar sentimentos, compromisso, gestão saudável de conflitos, disponibilidade e flexibilidade, expressar gratidão e apreciação.
Pode ser intuitivo pensar que, porque as relações requerem esforço, perdem a “magia”. No entanto este esforço consciente reforça o vínculo, revelando a importância que a relação tem para cada um. Os estudos longitudinais evidenciam que casais que investem em momentos de conexão - como conversar diariamente, celebrar conquistas, desenvolver o humor em momentos desafiantes – tendem a relatar maior satisfação conjugal. Ao contrário do mito do “felizes para sempre” a felicidade a dois não é um destino, mas um caminho, uma prática contínua.
Somente adquirir consciência que a relação não precisa de ser perfeita para ser rica e valiosa pode ser profundamente libertador. Compreender e assumir que haverá momentos de silêncio e distância, mal-entendidos, discrepâncias de opinião, diferenças e, ainda assim, é possível que o Amor exista e persista.
Quando deixamos de esperar um conto de fadas e passamos a encarar a relação como um caminho de crescimento mútuo, cheio de imperfeições e possibilidades, abrimos espaço para algo mais real e, paradoxalmente, mais duradouro do que a fantasia.
Este artigo é psicoeducativo — ajuda a pensar, não diagnostica, e não substitui acompanhamento profissional. Se precisa de apoio imediato: SNS 24 — 808 24 24 24 (24h) · Emergências: 112.