Cérebro da idade da pedra na Era Digital
1 de Maio de 2023 · 5 min de leitura

Por vezes sente-se desajustado neste mundo? Sente que a vida se tornou demasiado complexa e com inúmeras fontes de ansiedade? Se sim, não está sozinho.
Pertencer à sociedade atual pode ser um quebra-cabeças. Regras, Leis, Normas, Orientações e Requisitos que todos os dias vão surgindo e mudando. Expostos a volumes astronómicos de informação num sentido e, igualmente, no sentido oposto. Ameaçados em todas as frentes com as inúmeras crises que diariamente os meios de comunicação social nos trazem. Não creio que haja algum sector que não tenha sido já apelidado de em crise… Crise climática, energética, económica e financeira, política, saúde pública, alimentar, social etc.
Ser humano na atualidade pode ser muito desafiante e a mente humana não evoluiu para lidar com a complexidade do mundo atual. O Homo sapiens terá surgido há cerca de 200.000 anos, o nosso corpo e mente representam uma adaptação extraordinária desta espécie ao meio ambiente da altura onde o importante era encontrar alimento, abrigo e evitar predadores. O desenvolvimento do cérebro humano não previu a necessidade de solucionar questões menos imediatas como as diferentes crises, as doenças e pandemias, o aumento das taxas de juro ou a declaração do IRS…
Ainda que sejamos a espécie mais evoluída do planeta mantemos o cérebro da idade da pedra, a sociedade evoluiu de uma forma exponencial, mas a mente e o corpo não acompanharam gerando um desajuste ou desfasamento. Segundo a psicologia evolucionária este desfasamento ocorre quando uma espécie é sujeita a um ambiente que muda rapidamente e para o qual o corpo e o cérebro não têm tempo para se adaptar.
Em particular, a mente e corpo dos seres humanos estão adaptados para as situações físicas e sociais em que viviam os nossos primitivos antepassados há 200 milénios que tinham de sobreviver à fome, picadas de insetos e aranhas, predadores, violência e elevada mortalidade infantil.
Há cerca de 10 mil anos surge a agricultura e o homem começa a fixar-se permanentemente, cultivando e domesticando animais gerando um “big bang” na evolução da sociedade humana que o corpo e cérebro não acompanharam.
Um exemplo disso são as nossas escolhas e tendências alimentares. A alimentação atual possui uma grande variedade nutricional, no entanto mantemos uma preferência para os alimentos doces e ricos em gordura. Na atualidade sabemos que são alimentos pouco saudáveis, mas, há milénios estes alimentos, altamente calóricos, asseguravam a sobrevivência ao garantir que nos mantínhamos vivos até à próxima refeição, que não sabíamos quando iria ocorrer.
O nosso sistema nervoso evoluiu para sobreviver a predadores que exigiam reação imediata. Se nos encontrávamos com um urso ou um leão acionava-se o modo luta ou fuga (ou parálise) de modo a garantir a sobrevivência. Atualmente, não temos o risco de nos encontrarmos com um crocodilo ao virar da esquina ou com um tigre no parque infantil mas reagimos perante a inflação ou a conta do gás como se fossem predadores. As nossas ameaças atuais são psicossociais e requerem recursos cognitivos muito superiores. Não podemos fugir da conta da eletricidade, não podemos bater nos juros bancários nem paralisar perante o IRS.
Importa referir que fisiologicamente a resposta luta/fuga/parálise está associadas a atividade do sistema nervoso autónomo e não se encontra sob o nosso controlo consciente. Por isso, por vezes, reagimos de forma inadequada a uma situação atual sem que consigamos impedir-nos de o fazer.
Com a quantidade de informação a que estamos sujeitos nesta era digital é fácil identificar inúmeras ameaças. Isto leva a uma sobre estimulação do sistema nervoso autónomo que aciona regularmente a reação de luta/fuga/parálise com as respostas fisiológicas correspondentes (aumento do batimento cardíaco, contração muscular, respiração superficial, etc.). Estas respostas fisiológicas recorrentes levam a estados de ansiedade.
Chamamos ao homem da atualidade o Homem Moderno, mas na realidade mantemos uma mente com um funcionamento muito semelhante à do Homem Primitivo. Viver numa era digital com um cérebro da idade da pedra gera um desfasamento que induz necessariamente stress, ansiedade e até depressão e são necessárias estratégias que nos permitam atualizar a forma como processamos o volume de informação e os desafios tecnológicos a que estamos sujeitos atualmente. Algumas dessas estratégias incluem manter o contato com a natureza, promover as ligações com os outros, exercitar o corpo, limitar as redes sociais e a exposição a monitores e viver mais o presente, a vida que acontece.
Este artigo é psicoeducativo — ajuda a pensar, não diagnostica, e não substitui acompanhamento profissional. Se precisa de apoio imediato: SNS 24 — 808 24 24 24 (24h) · Emergências: 112.