Qual é a sua história?
1 de Maio de 2021 · 5 min de leitura

Todos contamos uma “história” acerca de nós próprios. Umas vezes é uma história feliz outras, nem tanto assim… Com o objetivo de dar sentido às nossas vidas e pacificar conflitos internos estamos continuamente a contar e recontar a história da nossa vida.
O que fomos no passado está continuamente a interagir com o que somos hoje, neste momento. O hoje está a esculpir quem seremos no futuro. Nesta tapeçaria de passado, presente e futuro podemos estar continua e perpetuamente a tecer uma história pessoal que nem sempre nos ajuda, nem sempre nos é útil.
Ao nível do cérebro são recrutadas as mesmas áreas quando recordamos um passado ou quando sonhamos com um futuro. Quando imaginamos eventos futuros ativamos centros de processamento de memórias passadas. É com base no passado que concebemos e imaginamos um futuro. Por isso sujeitos com amnésia são incapazes de imaginar o futuro. Para olhar para a frente temos de olhar para trás. Os estudos de neuroimagem são muito claros, usamos o passado para arquitetar o futuro.
As histórias que contamos da nossa vida constituem a narrativa que dá identidade à personagem que chamamos Eu. Num interlaçado subtil, a narrativa torna-se a identidade, e a identidade, por sua vez, determina a possível narrativa. Prisioneiros da nossa própria história tornamo-nos, muitas vezes, incapazes de mudar.
Para muitos de nós a incerteza que vem com a idade traz inerente uma inclinação para solidificar a história. Num esforço para controlar a ansiedade derivada da mudança formamos uma crosta sólida que, com o tempo, endurece cada vez mais. Cristalizamos o passado vendo-o à luz de uma perspetiva única assumindo ser a única existente. “Isto foi o que aconteceu, estes são os meus arrependimentos e estes os meus triunfos, o que está feito está feito!”
Com base nesta perspetiva cristalizada, criamos as expectativas do futuro com graus de liberdade restritos dada a rigidez do nosso passado. Criamos um futuro sem grandes viragens, evoluções ou alterações. O enredo da nossa história, ao contrário da aventura que a nossa infância adivinhava, torna-se numa monótona e previsível novela em que os episódios se repetem apesar de em cenários e com atores diferentes.
Ainda que esta estratégia acalme a nossa ansiedade no momento, retira-nos a faculdade de um envolvimento criativo com a existência. Deixamos de permitir que quem podemos ser se revele livre de pré-conceitos para passarmos a ser autómatos repetidores do passado. “Mais do mesmo!” Pacificados, acreditamos que a vida é apenas o que vivemos, deixa de haver lugar a surpresas, a vida deixa de nos surpreender, a chama da inocência apaga-se.
Esquecemos que são as alterações no enredo que fazem uma grande história, é o que torna a história surpreendente. Precisamos de nos tornar criativos com a nossa história.
Sim, isto é assustador, tanto nos tempos em que a vida é pacificamente rotineira, mas especialmente nos tempos em que os eventos de vida nos atropelam e lançam por terra a nossa estabilidade e perdemos o pé navegando na incerteza. A vida pode ser assustadora, mas igualmente excitante. Quem quereria ler uma história da qual soubesse o final? Continuaria a ler um livro do qual sabe já o desfecho?
Ainda que não consigamos prever as voltas que a nossa vida sofre, podemos escolher como interpretar e responder às dificuldades e desafios. O segredo perturbador é que cada um de nós é o protagonista e o narrador de uma história sobre a qual desconhece desfecho.
Reescrever a nossa narrativa é um ato criativo. E a criatividade requer que recebamos o inesperado com abertura, com simplicidade, aprendendo a lidar com a ambiguidade e privilegiando mais a complexidade que a simplicidade do previsível. A vida é um processo de descoberta no tempo, uma expedição ao desconhecido. A história da nossa vida aguarda a nossa inovação criativa.
De que forma pode olhar para a sua vida passada sob uma nova perspetiva? Como será imaginar um futuro diferente daquele que tem antecipado?
Até ao dia da nossa morte estamos a viver a história das nossas vidas em que o enredo está continuamente a mudar e evoluir, a ser editado e reescrito, embelezado ou desfigurado por um intrépido narrador, você! É o ator principal da sua história, o protagonista, o realizador, o escritor da sua narrativa. Quem sabe não é hora de reescrever a sua história sob a perspetiva do herói que é?!
Este artigo é psicoeducativo — ajuda a pensar, não diagnostica, e não substitui acompanhamento profissional. Se precisa de apoio imediato: SNS 24 — 808 24 24 24 (24h) · Emergências: 112.