Síndrome do Impostor
1 de Setembro de 2019 · 4 min de leitura
Sente que o seu sucesso ou o seu cargo, não lhe é merecido? Sente que, de alguma forma, os elogios que lhe fazem ou o reconhecimento que lhe dão não lhe é devido? Sente que, inevitavelmente, as pessoas irão perceber que é um impostor?
Se já viveu esta experiência não está sozinho! Segundo os estudos 70% da população já experienciou este fenómeno designado de Síndrome do Impostor.
Maya Angelou é um destes casos, poetisa, escritora, ativista de direitos civis e historiadora (entre outras coisas) após ter escrito 11 livros e ter ganho vários prémios duvidava do seu valor e dizia: “tenho enganado as pessoas e elas vão descobrir-me!”
O fenómeno ou síndrome do impostor é um padrão psicológico no qual os indivíduos desacreditam e minimizam os seus sucessos e internalizam um medo de serem expostos, descobertos e identificados como fraudes. As pessoas que experienciam este fenómeno não são capazes de internalizar o seu sucesso e assumir o mérito dos seus próprios êxitos, pelo contrário, acreditam que as suas conquistas se devem à sorte ou ao facto de terem enganado os outros de alguma forma.
Esta designação de síndrome do impostor surge em 1978 com as investigadoras Pauline Clance e Suzanne Imes da Universidade da Georgia quando perceberam que muitos dos melhores e mais talentosos estudantes da Universidade não assumiam o mérito das classificações que obtinham ou do sucesso académico que tinham e decidiram, então, investigar um grupo de 162 mulheres muito bem-sucedidas. As investigadoras concluíram que a maioria delas minimizava as suas conquistas e acreditavam que o seu sucesso iria desaparecer assim que as outras pessoas descobrissem o seu terrível segredo: “que eram uma fraude, impostoras de um sucesso que não lhes era merecido!”
Ainda que as investigações iniciais tenham sido sobre mulheres, atualmente sabe-se que atinge igualmente os homens.
Pode perceber o quão comum é este fenómeno refletindo sobre as questões seguintes e perceba se recorrentemente se verificam na sua vida:
- Atribui o seu sucesso à sorte, ao estar no lugar certo à hora certa ou a um erro informático?
- Minimiza a sua competência, acredita que se teve sucesso, qualquer um pode ter?
- Sofre perante a mais pequena falha no seu trabalho?
- Mesmo quando recebe prémios ou os outros reconhecem o seu valor e talento acredita que não tem a capacidade e talento que lhe atribuem?
- Receia que os outros venham a descobrir que não é tão inteligente ou competente como se faz parecer?
As razões que levam ao desenvolvimento deste padrão são diversas e relacionam-se com traços de personalidade (como o perfeccionismo), estilos parentais da família de origem (como elevadas expectativas, pais superprotectores, negligência), mudanças no contexto laboral ou académico, baixa autoestima e sentimento de desmerecimento, entre outros.
Viver e experienciar o fenómeno do impostor pode limitar a qualidade de vida e o bem-estar devido ao medo subjacente de ser “desmascarado o impostor” e à auto-monitorização constante que é necessária. Talvez o maior impacto desta síndrome seja que limita, muitas vezes, a coragem para agarrar novas oportunidades, explorar áreas potenciais de interesse e seguir um caminho com significado.
Para ultrapassar esta condição é útil falar com outros que sentem o mesmo de modo a normalizar. Também é importante questionar a veracidade dos nossos pensamentos especialmente quando são incongruentes com a realidade e desenvolver um discurso interno autocompassivo, tratar-se e falar consigo mesmo como trataria ou falaria com um amigo querido.
Salienta-se que o fenómeno do impostor não é uma patologia do foro psicológico é apenas um padrão psicológico muito comum entre os seres humanos, em particular entre os mais talentosos. Como dizia Bertrand Russel “O problema no mundo é que os tolos e fanáticos estão sempre tão certos de si mesmos e as pessoas sábias tão cheias de dúvidas”.
Este artigo é psicoeducativo — ajuda a pensar, não diagnostica, e não substitui acompanhamento profissional. Se precisa de apoio imediato: SNS 24 — 808 24 24 24 (24h) · Emergências: 112.